3 vezes em que o Brasil tentou se tornar uma potencia política global

Principais conclusões

  • Em três momentos diferentes na década de 1920, 1940 e 1990 o Brasil esteve próximo de se tornar uma potência global.
  • O Brasil esteve presente em momentos marcantes como a criação do Conselho de Segurança da ONU.
  • O país continua tentando se tornar uma potência política internacional

Em pelo menos três momentos decisivos da história do planeta, o Brasil quase conseguiu ocupar uma posição de maior destaque na política internacional.

A primeira delas foi em 1926, quando procurou assento permanente no Conselho da Liga das Nações; a segunda, quando chegou a ser considerada pelos EUA para ocupar uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU; e a terceira na década de 90, quando retomou sua campanha no Conselho de Segurança.

Esses três episódios foram profundamente analisados em um estudo desenvolvido pelos pesquisadores Eugenio V. Garcia e Natalia B. R. Coelho, intitulado A Seat at the Top? A Historical Appraisal of Brazil’s Case for the UN Security Council e publicado na revista SAGE Open.

A pesquisa nos apresenta tentativas onde o Brasil, embora em contextos completamente diferentes, tinha como objetivo aumentar a participação nas principais decisões da política global.

1. Em 1926 o Brasil tentou conseguir um assento permanente na Liga das Nações

A primeira tentativa aconteceu na década de 1920, quando a Liga das Nações era a principal organização internacional que existia.

Naquele momento, o Brasil tinha acabado de participar da Conferência de Paz de Paris, no ano de 1919, e consequentemente acabou conseguindo um assento temporário no Conselho da Liga.

Durante alguns anos daquela década, o país esteve procurando alternativas para transformar essa opção temporária em um assento permanente na Liga das Nações.

Contudo, no ano de 1926, a situação acabou ficando complexa, já que o governo do então presidente da República, Artur Bernardes, adotou uma postura rigorosa nas negociações envolvendo a entrada da Alemanha na Liga e, por conta disso, acabou entrando em conflito com outras potências.

A estratégia adotada pelo governo brasileiro acabou não funcionando e, como consequência, não só o país não conseguiu um assento permanente, como deixou a Liga das Nações no mesmo ano.

Essa primeira tentativa do governo brasileiro de tentar se tornar uma potência política internacional acabou sendo marcada por uma diferença entre a ambição dos nossos governadores e nossa capacidade de sustentar uma estratégia diplomática global.

2. Em 1945, quando o Brasil foi cogitado para uma vaga permanente na ONU

O segundo episódio, com certeza, pode ser considerado o mais impressionante. E isso aconteceu durante os últimos anos da Segunda Guerra Mundial, quando as potências aliadas começaram a discutir a criação da Organização das Nações Unidas e a estruturação do futuro Conselho de Segurança.

Naquele período, os Estados Unidos chegaram a considerar a possibilidade de criar uma sexta vaga permanente, destinada a algum país da América Latina, com o Brasil sendo o principal candidato.

A posição do Brasil era muito favorecida, em especial pela ligação próxima com Washington, assim como pela participação do país no esforço de guerra dos Aliados.

Era um momento em que os americanos viam o Brasil não somente como um país da América do Sul, mas sim como um porta-voz que conseguiria representar a América Latina.

Contudo, a proposta norte-americana acabou encontrando resistência da União Soviética e do Reino Unido, que não demonstraram interesse em ampliar o número de membros permanentes, e a ideia acabou sendo abandonada antes da criação definitiva da ONU.

Quando a ONU foi então criada, no ano de 1945, o Conselho de Segurança ficou com cinco membros permanentes, sendo eles: Estados Unidos, União Soviética, Reino Unido, França e China. E o Brasil acabou ficando de fora.

É importante pontuar que o país não chegou a ser formalmente escolhido como um sexto integrante da ONU. O que aconteceu, na verdade, foi uma proposta apresentada pelos Estados Unidos para criar uma sexta vaga, tendo o Brasil como possível postulante.

Ainda que não tenhamos conseguido uma cadeira na ONU, esse episódio marcou a história como uma das principais oportunidades diplomáticas já enfrentadas pelo Brasil.

3. As novas tentativas de entrar no Conselho de Segurança da ONU após os anos 90

A terceira tentativa de se tornar uma potência política internacional ganhou força logo após o fim da Guerra Fria, em que, com a transformação da ordem internacional, o Brasil passou a defender de maneira consistente uma reforma no Conselho de Segurança da ONU, alegando que sua composição não refletia mais a realidade global.

Consequentemente, a partir da década de 90, a candidatura do Brasil passou a ser representada não só por uma questão de prestígio, como também em defesa de uma maior representação de países em desenvolvimento e do chamado Sul Global.

Em 1997, uma proposta que ficou marcada como Plano Razali chegou a prever a criação de novos assentos permanentes, incluindo vagas para os países em desenvolvimento.

Contudo, o plano acabou não sendo aprovado, mas foi importante por evidenciar que a reforma do Conselho de Segurança da ONU estava novamente em discussão.

Anos depois, o Brasil acabou se unindo à Alemanha, Índia e ao Japão para formar o que conhecemos como G4, grupo criado com o interesse de defender conjuntamente a ampliação do Conselho de Segurança e a inclusão dos quatro países entre os novos membros permanentes.

Contudo, embora tenhamos visto diferentes iniciativas, até hoje a reforma do Conselho não foi aprovada, e o Brasil segue há 80 anos sem um assento permanente.

As tentativas do Brasil de se tornar uma potência política internacional

Embora tenhamos vários momentos registrados, os episódios apresentados não significam que o Brasil esteve em algum momento prestes a se tornar uma superpotência como os Estados Unidos ou a União Soviética em sua época.

O que esses episódios nos revelam é algo mais específico: que, em diferentes momentos da história, o Brasil se viu envolvido em tentativas de conquistar uma posição permanente no núcleo das decisões internacionais.

Apesar das mudanças e das diferentes estratégias adotadas ao longo de várias décadas, a busca do nosso país por um papel mais relevante na governança internacional permaneceu constante.

Informações adicionais:

Referência acadêmica alternativa:
Registro acadêmico do artigo — RePEc

Fonte institucional brasileira sobre a reforma do Conselho de Segurança:
O posicionamento do Brasil em relação à reforma do Conselho de Segurança — Ministério da Defesa

Outro estudo institucional sobre a reforma da ONU:
Brasil e a reforma de uma instituição septuagenária — Ministério da Defesa

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